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Kaio

 

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01 julho 2007

A dilatação da espera

- Barthes estava certo, certíssimo ao retratar a espera em seus "Fragmentos de um discurso amoroso". É incrível como este tipo de situação é tão agonizante, pois, ao mesmo tempo que terei uma recompensa se continuar esperando, parece que os segundos viram anos e os minutos, séculos!
Carlos estava falando sozinho na entrada do shopping, enquanto esperava Suelen. O garoto, se lhe fosse permitido, passava horas e mais horas monologando sobre os mais diversos assuntos. Desta vez, no entanto, havia uma monomania, um tema que não saía de sua cabeça: Suelen. Carlos tinha medo de que esta fosse apenas mais um de seus amores platônicos (segundo as contas dele, ela seria a 4ª), os quais ficaram apenas na idealização e na unilateralidade.
- Se há alguma coisa da Física Moderna que se pode aplicar aos relacionamentos, estamos falando da dilatação do tempo. A pessoa que espera, em sua inércia angustiante, parece sentir o relógio se adiantar, e nada daquele (a) com que se encontrará chegar! Este (a), aliás, deve estar em um trem distante na velocidade da luz, pois parece que só se atrasa, nunca consegue ser simultâneo, pontual!
Ele não se importava quando alguma pessoa que passasse lá pela entrada se espantasse quando o visse andando e tagarelando. Carlos nunca escondeu de ninguém que tinha vocação para filósofo, algo como os peripatéticos aristotélicos, que fiosofavam enquanto andavam pelos jardins da escola. Não era porque estava só que o garoto deixaria essa idiossincrasia de lado. Além do mais, já passava das 19 horas e nada de Suelen.
- Talvez eu já pressentisse que não ia dar certo. Fiquei meses e mais meses observando-a na sala de aula, mas sem nunca tomar uma iniciativa. Agora que estamos na faculdade, embora em cursos diferentes, passei a conversar com ela não só sobre o trivial - música, política, cinema etc. - , mas também sobre coisas que eu jamais diria a ela no ano passado. Coisas como amor, solidão, futuro, sonhos, amizade... Suelen, mesmo sendo quase um ano mais velha do que eu, parece ser muito mais madura. Posso até ser mais culto que ela, mas com certeza levo de lavada em experiência de vida.
Carlos, prolixo como sempre, estava "recontando" os fatos do relacionamento.
- Pensando melhor,
não vou ser tão auto-indulgente assim: ela é tão culta quanto eu. Afinal, se não fosse, jamais iria ao cinema comigo na semana passada, quando finalmente notou o quanto eu gostava dela. Felizmente, ela não quis destruir o meu platonismo, e marcou este segundo encontro para me conhecer melhor. Porém, acho que ela deve ter mudado de idéia, pois já estou esperando-a há quase duas horas, e nada! Mesmo assim, continuarei resmungando em minha solidão.
- Você realmente achou que eu me esqueceria de você? Logo a pessoa que nunca teve finais felizes que fossem verossímeis, tampouco histórias com alguma expectativa e tensão no suposto clímax? Pois bem, desculpe-me pela demora, estava no salão me arrumando para o encontro. Obrigada por ter me aguardado, querido!
Era Suelen.

[Esta foi a minha última redação do semestre. A proposta que eu escolhi pedia uma narração sobre a espera. Tirei 99 em razão de ter escrito "tomar uma reação" no 5º parágrafo, o que me custou um décimo na Modalidade Padrão.
Foi um dos textos que eu mais gostei de escrever neste ano, não só porque ele é tipicamente kaionista, mas porque o redigi em meia hora, minutos antes de ir para a escola na 5ª feira. O original é praticamente idêntico à versão deste post, salvo algumas poucas correções que fiz, inclusive uma no errinho que me custou um 100. Até a próxima!]

 

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